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O caminho de beija-flores

Foto do escritor: Leide Patrícia Mozini
Leide Patrícia Mozini
há 5 dias
4 min de leitura

Era final de 2018. Eu acabava de chegar ao Núcleo de Práticas Restaurativas.


Naquela época, o pessoal trabalhava com mediação, e eu participei de uma delas como observadora.


Entre os participantes estavam uma diretora escolar, uma coordenadora pedagógica, uma mãe, um filho e duas mediadoras.


Essa diretora era vista como muito durona. Algumas pessoas a chamavam de “sargentão”. Ela transmitia a imagem de uma pessoa muito firme, rígida, exigente. E eu tive essa mesma impressão dela.


Depois daquela mediação, não tivemos contato por algum tempo.


Em meados de 2019, o Núcleo promoveu uma formação com Vivi Tuppy chamada Gestores da Paz, da qual participaram diretoras, vice-diretoras e coordenadoras pedagógicas, inclusive a nossa personagem.


Durante a formação, algumas gestoras comentaram sobre os Círculos de Construção de Paz que estavam sendo realizados em escolas de Rio Preto por meio de um projeto que eu conduzia, chamado Sal da Terra.


Essa diretora ficou sabendo do projeto e me procurou. Queria entender um pouco mais sobre aquilo. Por que as pessoas estavam falando de círculos? O que seriam esses tais círculos?


Marcamos uma conversa. Falamos sobre Justiça Restaurativa, seus princípios, seus valores e também sobre as práticas circulares.


Então ela me fez um convite:


— Você não poderia fazer isso na minha escola, com toda a minha equipe?


Eu aceitei. Era uma cidade vizinha, dentro da comarca de São José do Rio Preto. Haveria despesas, mas isso eu já estava acostumada a bancar, como todos nós, facilitadores, bem sabemos.


E, quando cheguei à escola, fui recebida por dois beija-flores. Eles dançavam à minha frente, enquanto a nossa personagem me aguardava na porta, sorrindo com a cena.


Uma escola limpíssima, cercada de árvores e lindas flores.


Mas, no fundo, eu sentia certo receio: Será que dará certo? Afinal, ela é tão durona! E algumas vozes ainda ecoavam ao meu ouvido: Não perca seu tempo, querida. Ela é um sargentão.


Como sou uma figura curiosa, aceitei o desafio e realizamos os círculos com toda a equipe da escola.


Participaram professores, funcionários da secretaria, equipe de apoio, merendeiras e profissionais da higienização.


Nossa personagem participou ativamente. Sentou-se no chão junto com todos, tirou fotos, compartilhou reflexões. Foi um encontro em que as pessoas se sentiram muito à vontade.


Em meio àquela parceria, ela começou a me enviar vídeos de centramentos.


O centramento era algo que a equipe escolar havia aprendido com Vivi Tuppy. Faziam a prática na entrada das aulas e também após os intervalos. Às vezes, era nossa personagem quem conduzia os centramentos — pois é, a “sargentão” dizendo: respirem fundo... soltem o ar devagar... Noutras vezes, alguém de sua equipe assumia a condução.


Ela já devia ter quase trinta anos dedicados à Educação, mas era a primeira vez que se deparava com aquelas práticas: círculos, centramentos e outras formas de lidar com os conflitos.


Havia ali algo próximo de um despertar, de desaprender, de aprender a aprender... e de participar ativamente. Para mim, acompanhar aquilo justamente no início de minha atuação como facilitadora foi uma oportunidade única.


E eu via muita coragem naquela mulher por receber o novo daquela forma. Logo ela, a “sargentão”.


Incansável, perguntou:


— Você poderia fazer com os alunos?


Lá fui eu.


Era horário de troca de turno. Os alunos da manhã estavam saindo e os da tarde, chegando. Mas eu não ouvi o sinal.


O que eu ouvi?


Ouvi música.


Era Dias Melhores, do Jota Quest. A música tocava bem alto enquanto os estudantes deixavam a escola. A comunidade ao redor também podia ouvi-la.


Foi uma cena de filme. E aquela música ficou martelando na minha cabeça. Lembro-me de pensar:


Como assim, na escola da “sargentão” tem música e não sirene?


E aquilo não era algo que a Justiça Restaurativa havia trazido. Não era algo que os círculos haviam criado. Não vinha do Gestores da Paz. Segundo me contaram, já acontecia havia um tempo.


Eram flores, árvores, beija-flores e música em vez de sirene.


Pela manhã era Kennedy. Na saída, rock, pop, samba...


Foi então que percebi que a imagem que muitos de nós, do Núcleo, tínhamos dela não era a imagem completa.


E tudo ia indo muito bem...


Até que chegou a pandemia.


As urgências daquele período e todos os desafios que enfrentamos acabaram dispersando o movimento.


Eu estava em trabalho remoto, como a grande maioria de nós bem se lembra, quando, um dia, recebi uma ligação.


A triste notícia de seu falecimento.


Ela morava sozinha, e as pessoas próximas começaram a estranhar sua ausência nas redes sociais. Foram buscar notícias.


Ela se foi cedo demais.


Senti tristeza e gratidão.


Gratidão pela honra de ter podido aprender com ela no pouco tempo que tivemos juntas.


Essa é uma história real. Se eu pudesse pintar outro final, seria bem diferente. A escola não continuou com os círculos depois da pandemia. Houve muitas mudanças.


Hoje compartilho O caminho de beija-flores em honra à sua memória.


Com o tempo, fui entendendo melhor aquilo que muitos chamavam de dureza. Havia ali força, obstinação, busca pelo justo.


Recentemente, soube de mais uma história. No início de sua carreira, ela lutava pelo comércio local e incentivava os comerciantes a se desenvolverem, para que a escola não precisasse buscar em outra cidade aquilo de que necessitava.


Foi “a braba”.


A mulher que dedicou a vida à Educação.


Que compartilhou saberes e que me apoiou sem talvez jamais ter sabido.


Na busca de apoio, foi apoio.


Passei a dar os primeiros passos para vencer os meus próprios medos e julgamentos. Os ensinamentos dos círculos nos potencializaram, ou melhor, nos deram força.


Do desafio de conhecer e reconhecer alguém por inteiro. Escolhemos confiar. Uma na outra, e na Justiça Restaurativa.


Na escola da “sargentão” havia música em vez de sirene.


Havia árvores.


Havia flores.


E havia beija-flores.


De nota em nota, por dias melhores.


Em memória de S.

 
 
 

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