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ILZA: O que o nome da minha avó tem a ver com os Círculos de Construção de Paz?

Foto do escritor: Leide Patrícia Mozini
Leide Patrícia Mozini
3 de out.
2 min de leitura


À memória de minha avó Ilza, este é o Círculo que lhe dedico.

 



— Como você gosta de ser chamada?


Essa pergunta ecoou entre sulfites, fitas e canetas coloridas. Um “Leide” entre pingos de canetinhas e bolinhas coloridas espalhadas por todo o crachá, enquanto eu dava o meu máximo na arte de desenhar.


É assim nos Círculos: cada pessoa escreve o próprio nome. Ou melhor, não necessariamente aquele que aparece nos documentos, mas o nome pelo qual deseja ser chamada no seu dia a dia.


Eu até preferiria Patrícia. Mas talvez Patrícia me traga muitas saudades.


Leide soa mais comercial. E, depois de um longo processo de aceitação dessa variação tão própria de nós, brasileiros — que adoramos uma mistura entre português e inglês —, fiz as pazes com ele. Digamos que meus pais estavam muito inspirados com o nascimento da primeira filha. E assim fiquei: Leide Patrícia.



Nunca imaginei que essa pergunta, repetida tantas vezes nos Círculos, pudesse, depois de tanto tempo, despertar uma lembrança adormecida. Recentemente, ao fazermos nossos crachás, uma pessoa escreveu no lugar destinado ao nome: “Meu amor”. Era assim que gostaria de ser chamada. “Meu amor.” Foi uma das coisas mais fofas que já vivenciei em um Círculo.


Essa turma, tão especial, acabou me levando a assistir novamente Frozen. E, enquanto revia o filme, um nome me atravessou feito flecha: Elsa.


Eu já havia assistido àquele filme outras vezes. Já tinha ouvido aquele nome tantas vezes. Mas, por alguma razão, somente agora ele abriu uma pequena porta na memória.


Elsa.


Elza.


Era ela: minha avó.


Minha avó se chamava Ilza. Mas, durante toda a sua vida, foi chamada de Elza.


Em casa, era “Erzinha” desde que nasceu.


Meados da década de 1930, seu primeiro dia de aula. A professora fazia a chamada:


— Ilza?


— Ilza?


— Ilza?  


Foi assim que ela descobriu o seu verdadeiro nome. Não se sabe exatamente o que aconteceu com ela naquele dia, mas jamais voltou à escola.


Cresci ao seu lado com gente batendo palma:

— O fia, a Dona Elza taí? 


Era um tal de “Dona Elza” pra cá, “Dona Elza” pra lá. Mas quando ela assinava os cheques — pois aprendeu a desenhar o próprio nome —, escrevia: Ilza.


— Meu nome é Ilza. Ilza é muito mais bonito — lembro de ouvi-la dizer.


Por vezes eu, bocuda como era, reagia: — Mas o nome dela é Ilza!


Ninguém nunca lhe perguntou como se sentia sendo chamada por um nome que não era o seu, mesmo gostando tanto do seu nome de registro. Com o tempo, algumas poucas pessoas passaram a chamá-la de Ilza, mas os remanescentes continuaram no antigo hábito.


Não sei como pode ter sido uma vida assim: na escuridão das letras, no desejo de ser vista por quem era, e não como os outros gostariam ou “achavam” que fosse.


Não devo supor os seus sentimentos, pode não ter dado tanta importância assim, porque uma coisa ela fazia bem, “muxoxos” para os pequenos dramas.


Por precaução. Eu, ariana e bocuda, posso honrar sua memória hoje e gritar: o nome da minha avó é Ilza!


E Ilza é muito mais bonito.





Mas será o Benedito? Até o corretor?



 
 
 

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